O BULLYING E EU

O BULLYING E EU

16 • 04 • 2017

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Nunca pretendi escrever sobre bullying. Mas estava eu assistindo um vídeo da Bruna Vieira (esse aqui) quando sem querer querendo me identifiquei completamente com ele. E acreditem, só de começar a escrever esse post, lágrimas já começaram a rolar pelo meu rosto.

Sofri bullying dos meus 7 anos até os 15. E eu não sofri um bullying de leve, não. Durante a minha infância (e todos que estudaram comigo no ensino fundamental irão lembrar) eu era chamada de girafa. Tipo, me chamavam mais de girafa do que pelo meu próprio nome. E tudo isso por que? Porque eu sempre fui a aluna mais alta da turma: mais alta que as meninas E que os meninos também.

E essa impotência de ser chamada de girafa constantemente foi me tornando uma pessoa irritadiça. Porque a brincadeira não acontecia somente na escola, mas acontecia fora da escola também. Certa vez, eu estava viajando com a minha melhor amiga (e eu tinha uns 9 anos nessa época) quando a cunhada dela que era uns 3 anos mais velha que nós começou a me chamar de poste. Ela olhou pra um poste e disse: “olha a Lilian ali”. E eu tentei debater com ela, mas ela e a prima da minha amiga caíram na risada. Minha amiga disse pra eu não ligar… Até que a menina continuou a me zoar e eu fiquei tão nervosa que grudei nela e enfiei minhas unhas na pele dela até sangrar.

Eu estava furiosa. E não estava furiosa só por aquela situação. Eu estava furiosa por anos sofrendo bullying sem eu ter feito algo para merecer aquilo. Qualé! Eles me zoavam pela minha altura. Mas por acaso eu tinha que cortar minhas pernas para que parassem de zoar de mim?

Daí que o tempo foi passando, as pessoas foram crescendo e apesar de eu continuar sendo a pessoa mais alta da sala, as zoeiras pararam. Até que eu tivesse que, no primeiro ano do ensino médio, mudar de colégio. Fui de um colégio particular onde eu havia estudado por 8 anos, para um colégio público pois minha mãe não tinha mais coragem de pagar escola pra mim.

E eu achava que já tinha sofrido bullying o suficiente, né? Sabia de nada, inocente. Neste colégio, fui ao inferno e voltei é a única definição plausível. Fui odiada pelas meninas pois vinha de escola particular. Detestada pelos meninos por ter cara de patricinha e ser inteligente. Minha única salvação ali foram três amigas que fiz. As meninas me excluíram, mas os meninos fizeram coisas bem piores. Eles diziam, toda semana, que iam me pagar na saída. Que não adiantava eu tentar fugir, que eles iriam me seguir. Uma vez, um deles ameaçou tirar o pênis pra fora da cueca e passar na minha cara. OI? Algumas vezes eu ficava quieta e ia pra casa olhando pra trás, pra ver se não tinha ninguém me seguido. Em outras eu começava a chorar na sala de aula e tinha que ir pra diretoria, pra denunciá-los, enquanto a escolta da polícia vinha pra escola e eu esperava todos os alunos terem ido embora pra ir pra casa. E em outras eu simplesmente ficava enfurecida e começava a discutir com eles em plena sala de aula. E eram isso que eles mais odiavam em mim. O fato de eu não ficar quieta.

“Ah Lilian mas vai dizer que ninguém fez nada?”. Não. Tinham algumas pessoas da sala que eram até legais, mas tirando duas amigas minhas que sentavam comigo ninguém ousou rebater o que aqueles garotos cruéis diziam. Eles também tinham medo. Eu tinha medo. Uma das minhas amigas, Gi, começou a sofrer bullying também depois de tentar me defender deles. Dizem que é nessas horas que a gente descobre quem é nosso amigo e acredito que se não fossem por elas eu teria desistido.

Comecei a dormir nas aulas. Eu simplesmente não queria ir pro colégio. Chegava em casa e chorava chorava chorava. Faltava o máximo que podia. Até pouco tempo atrás não podia nem passar na rua desse colégio que me trazia más lembranças e me dava arrepios.

Hoje eu sou uma pessoa muito mais forte. Confesso que não ligo mais para o que as pessoas pensam de mim. Saio de casa com roupas confortáveis, sem maquiagem, cabelo sem pentear. Sinceramente? Eu realmente não ligo. Todo esse sofrimento que passei me fez eu me aceitar como sou. Aceito a minha altura, meus cabelos volumosos, minhas estrias, meus seios pequenos. Gosto de quem sou. Confesso que gostaria de mudar algumas questões estéticas, mas me sinto confortável comigo mesma. Me sinto bem na minha própria companhia e não sinto necessidade de agradar ninguém. Meu namorado e minha mãe que o digam. Eu me acho bonita, inteligente, determinada e sonhadora. E não preciso provar isso para ninguém.

E a minha resposta para todos os praticantes de bullying bem como a minha mensagem para quem sofreu bullying mas também para quem nunca praticou, nem nunca sofreu, é o seguinte texto da Hariana Meinke:

“Tá sendo a melhor versão de si mesmo pra você e pros outros? Ser gentil e agradável é uma opção que a gente faz todos os dias a cada vez que vai falar com alguém – seja conhecido ou não. Tá fazendo parte da vida do outro com cuidado e assumindo a responsabilidade do efeito que você pode fazer sobre as pessoas ou tá agindo de qualquer jeito e sendo qualquer pessoa? É tudo uma questão de escolha”.

Com amor, Li.

Postado por Lilian


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4 Respostas para "O BULLYING E EU"

Juliana - 17 abril 2017 às 00:02

Uau, Li. Eu também sofri bullying na infância e isso me deixou marcas que carrego até hoje. Adorei a sua iniciativa, irei compartilhar minha vivência no meu blog também e talvez possamos alcançar alguém e ser fonte de empoderamento. Um beijo, amo seu blog 💙.

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Lilian Lilian abril 18th, 2017 às 3:10 pm - respondeu:

Ju, vou esperar seu post pois fiquei curiosa pra saber como foi a tua experiência. Se a gente fazer bastante barulho sobre isso, os pais das crianças serão alcançados – se não elas próprias – e todos serão muito mais bem informados sobre bullying.
Um beijo, obrigada pelo carinho <3 ~ganhou um sorrisão meu~

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Claudia Hi - 18 abril 2017 às 12:25

Que história triste Li. Estou vendo muita gente falando que sofreu bullying e acho que tem muito mais gente que não comenta nada. Eu não diria que sofri bullying. Acho que o pessoal no geral foi bem legal comigo. Eu que era uma sonsa. Tinha gente que achava que eu era muda rs E mesmo assim ninguém zoava muito comigo. Eu odiava a escola mas não por causa do comportamento dos meus coleguinhas, mas por eu não saber socializar como os outros.

É uma pena que para uma brincadeira ser engraçada precise machucar outras pessoas.

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Lilian Lilian abril 18th, 2017 às 3:06 pm - respondeu:

De verdade, Clau, fico feliz por você não ter sido mais uma vítima do bullying. Poxa… Que pena que você não se sentia confortável pra se socializar com os outros. Mas as vezes a gente acha que o problema era nosso, quando não era, né? Talvez você só não sentisse que teria uma amizade sincera ali 🙂

Um beijão!

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